Vivemos
um momento na religião em que a figura do ogã passou por uma transformação
curiosa e, em muitos aspectos, preocupante. De uns tempos para cá, tornou-se
cada vez mais comum observarmos o surgimento do "ogã de festival",
aquele que possui uma voz marcante, domina os toques, tem performance de palco
e ganha notoriedade nas redes sociais. Não demora muito e uma chuva de patrocinadores
aparecem para promover seus produtos e tornar o sagrado uma outra nova veia de
comércio. Mas fica a pergunta, cadê os
ogãs para tocar em terreiro e prestar a caridade com o toque do asé à comundiade?
Pasmem, mas há uma série de terreiros queixando-se da falta de apoio na curimba.
A curimba
tem se tornado, para alguns, um palco para o estrelato digital, distanciando-se
do seu verdadeiro propósito sagrado. Para
a nova geração que chega à religião, é fundamental resgatar a compreensão de
que bater tambor não é um espetáculo, mas sim um ato de louvação e de doação,
disciplina e imensa responsabilidade espiritual.
Para
entendermos a profundidade desse papel, é preciso olhar para a raiz das
palavras e para o respeito às diferentes doutrinas. O termo "Ogã" tem origem iorubá e, nas tradições de matriz
africana, como o Candomblé, designa um cargo de alta hierarquia, um
"senhor" ou "protetor" da casa, que não entra em transe
e passa por ritos iniciáticos específicos.
Nessa tradição estruturada e
milenar de matriz africana, o cargo de Ogã possui dogmas inegociáveis, sendo os
dois principais a exclusividade masculina da função e a completa ausência de
transe, o que significa que o Ogã não incorpora, ou seja, ele não "dá
santo".
Quando a
Umbanda se consolida, ela absorve o uso ritualístico dos atabaques, mas adapta
a prática à sua própria flexibilidade doutrinária. É exatamente por divergir desses dois pilares fundamentais que muitos
zeladores e estudiosos do Candomblé pontuam, com toda a razão dentro de sua
liturgia, que na Umbanda não existiriam "Ogãs", mas sim
curimbeiros ou atabaqueiros.
Essa
justa demarcação teológica ocorre porque a religião umbandista rompeu com essas
restrições de duas maneiras muito claras: primeiro, ao permitir que as mulheres
ocupassem esse importante espaço de poder e comando sonoro e segundo, ao
aceitar com naturalidade que o responsável pelo couro também seja um médium de
incorporação durante as giras. Esse texto não objetiva discutir se qual
vertente teológica está correta, mas sim que independente do termo, faltam
pessoas nos atabaques dos terreiros.
A
Umbanda, no entanto, popularizou o termo Ogã para designar aquele que comanda o
toque e o canto. E, diferente da tradição de matriz africana, a Umbanda possui
uma flexibilidade doutrinária que permite e celebra a presença de mulheres no
atabaque. Compreender essas diferenças é
essencial para não ferirmos a doutrina de ninguém: respeitamos a tradição
estrita do Candomblé, que preserva seus mistérios e regras, ao mesmo tempo em
que validamos a beleza inclusiva da Umbanda, onde curimbeiros e curimbeiras (ou
ogãs, como se convencionou chamar) exercem a mesma função de sustentação
energética do rito.
Apesar da
importância central desse cargo, há uma escassez notável de literatura que
aprofunde os fundamentos da curimba de forma estruturada. Uma das poucas e
excelentes exceções é o livro "O ABC do Ogã", de Severino Sena, que
funciona como uma verdadeira bússola para quem deseja entender a seriedade da
função. A obra nos lembra que a técnica
no couro é apenas uma fração do trabalho, o verdadeiro fundamento está na
conduta, na obediência e na compreensão de que o atabaque é um instrumento de
comunicação direta com o sagrado. Sem essa base, o toque é apenas barulho,
desprovido do axé necessário para movimentar a espiritualidade.
A partir
desse fundamento, chegamos a um pilar inegociável: o comportamento e a ética. O
ogã é a voz da corrente e canta diretamente para os Orixás e Guias de Lei. Não existe coerência em entoar cantigas
sagradas que falam de amor, caridade, justiça e retidão se, fora do terreiro ou
nos bastidores da religião, a postura do indivíduo reflete maledicência,
vaidade ou comportamentos inadequados. A ética do ogã precisa ser
irretocável, pois a mesma boca que saúda o sagrado não pode ser instrumento de
desunião. O seu comportamento deve ser o espelho da mensagem que ele canta,
servindo de exemplo e inspiração para toda a comunidade.
Essa
postura ética reflete diretamente na preparação para a gira. A curimba é o
coração do terreiro, e a partir do momento em que o ogã coloca as mãos no couro
do atabaque, ele está transferindo o seu estado vibratório, mental e emocional
para todo o ambiente. Como esse ogã chegou ao terreiro? Ele realizou seus
preceitos? O corpo está limpo dos excessos mundanos e a mente pacificada? Chegar ao rito com energias densas,
estresse não filtrado ou atitudes desrespeitosas contamina a principal
ferramenta de modulação energética da casa. A preparação do ogã começa
muito antes de ele vestir o branco e pisar no congá.
Dentro da hierarquia da casa, o
ogã precisa ter a clareza cristalina de que ele é o braço direito do dirigente
religioso. Ele não
é uma figura independente que toca o que quer e na hora que quer, ele é o apoio
fundamental do sacerdote, seu cargo foi formatado para esse apoio religioso e aos
olhos do plano espiritual, ele foi escolhido para essa missão.
Essa
sintonia exige que o ogã entenda o andamento do trabalho apenas por uma troca
de olhares com o dirigente. Se o sacerdote precisa acelerar uma incorporação,
acalmar a corrente ou firmar uma vibração específica, é o atabaque que
traduzirá essa necessidade em ondas sonoras. O ogã é, portanto, um facilitador
do trabalho mediúnico, atuando em total harmonia com a liderança do terreiro.
É o ogã quem tem o dever de
observar se a energia da gira está "morna", sem tônus, com os médiuns
dispersos ou cansados. Quando a vibração cai, cabe a ele buscar no fundo da sua
alma e do seu repertório o ponto cantado certo para reerguer a corrente, mudar
a cadência e devolver o vigor espiritual ao ambiente. Ele também é o guardião do
ritmo, devendo observar se os médiuns estão batendo palmas no tempo correto,
pois palmas fora de compasso quebram a egrégora musical e dificultam a
concentração da corrente.
Além de manter o ritmo, o ogã
deve exercer um protagonismo didático e ritualístico. Ele é o grande
responsável por trazer os pontos adequados para as entidades que estão
trabalhando, ensinando a corrente a cantar. Uma liderança verdadeira na curimba
se preocupa, por exemplo, em resgatar e ensinar pontos para aquelas entidades
menos conhecidas ou que possuem poucos cânticos na casa. O ogã precisa construir um repertório que atenda a todos, garantindo
que nenhum guia ou linha de trabalho fique sem a devida sustentação sonora por
falta de conhecimento da corrente.
A percepção do ogã também não
pode se limitar apenas ao conga, ela precisa alcançar a assistência. O terreiro recebe, a cada gira,
pessoas em busca de alento, curas e respostas. Quando um visitante entra no
espaço sagrado, muitas vezes angustiado, o som do atabaque e a firmeza do canto
são os primeiros abraços espirituais que ele recebe. O ogã ritualístico entende
que a sua entrega acalenta quem assiste, preparando o coração do consulente
para o atendimento que virá a seguir, tornando a curimba uma ferramenta
poderosa de acolhimento psicológico e espiritual.
Portanto, o recado que fica para
essa nova geração é de resgate.
Que os
atabaques voltem a ecoar com a força do fundamento e do compromisso com a casa
espiritual. Ser ogã, curimbeiro ou
atabaqueiro na Umbanda é muito mais do que dominar a técnica ou buscar os
holofotes em eventos externos. É ser sustentação, é ser disciplina, é ser o
coração pulsante do terreiro que bate em uníssono com o coração do dirigente,
da corrente e, principalmente, da espiritualidade superior. Que possamos formar
ogãs tão grandes em suas atitudes e em sua ética quanto são em suas vozes.

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