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Mostrando postagens de 2026

ITÃ: IANSÃ SOPRA AS PALHAS DE OBALUAÊ

  Iansã sempre foi o vento que não pede licença para transformar. Conta o itã, registrado pelo olhar e pela sensibilidade de Pierre Verger, que houve um tempo em que Obaluaê , envergonhado das chagas que cobriam seu corpo, vivia isolado e coberto da cabeça aos pés pelas palhas da costa, o xaxará. Ele assistia às festas dos orixás de longe, sem coragem de dançar ou de se aproximar dos outros. Em uma celebração no orô de Ogum, enquanto todos se divertiam, Obaluaê permanecia à margem, tímido e quieto. Foi quando Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, percebeu a hesitação do orixá da cura. Sem hesitar, ela se aproximou e começou a dançar ao redor dele com força e graciosidade. No ápice de sua dança, Oyá soprou um vento tão poderoso que levantou todas as palhas que escondiam Obaluaê . Naquele instante, para a surpresa de todos os orixás presentes, as feridas e chagas de Obaluaê se transformaram em pipocas brancas e reluzentes, revelando um corpo jovem, belo e radiante. O vento de ...

OTÁ: PEDRA FUNDAMENTAL

  O Otá (ou ocutá, do iorubá òkúta) é uma pedra sagrada usada em religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, para fixar a energia de um Orixá. Representa uma das mais antigas e profundas formas de conexão entre o mundo visível/terra (Aiyé) e o plano espiritual (Orun).   Longe de ser compreendido como um mero objeto inanimado ou uma representação idólatra, o mineral é concebido como um recipiente natural de Axé, a força vital que permeia a criação. Nas terras iorubás, a escolha da pedra ligava-se intimamente ao elemento de onde ela emergia, seja o leito de um rio sagrado, o topo de uma montanha ou as entranhas da terra, funcionando como a própria condensação da energia do Orixá ou do ancestral ligado àquela força da natureza.   Com o passar do tempo, o Otá assumiu o papel central na estruturação dos igbás e assentamentos da religião, principalmente de EXU/POMBOGIRA. Para que a pedra se torne efetivamente um Otá consagrado, ela passa por rituais de d...

A ROUPA ALÉM DA MATÉRIA: COMO AS ENERGIAS E HISTÓRIAS SE IMPREGNAM NO QUE VESTIMOS

  Autores: Eduardo de Oxossi – T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda (Freguesia do Ó/SP) www.cflecheirodearuanda.com.br Lucas de Yansã – T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda (Freguesia do Ó/SP) www.cflecheirodearuanda.com.br   O pano que nos cobre não é apenas fios entrelaçados. Na visão espiritualista e, em especial, na Umbanda, a matéria e a energia caminham lado a lado. Não é a toa que os guias que descem em terra usam roupas como instrumentos de magia (Capas, lenços, saias, etc). Tudo o que tocamos, produzimos e vestimos absorve a vibração do ambiente, das intenções, da história, do simbolismo, das memórias e dos sentimentos com os quais entra em contato. As roupas funcionam como uma segunda pele e, por estarem em contato direto com os nossos chakras e nosso campo eletromagnético (nossa aura), elas acumulam registros vibracionais que podem nos impulsionar ou nos sobrecarregar. Compreender essa troca energética nos ajuda a ter uma relação m...

AMALÁ DE XANGO: QUEM COME QUIABO, NÃO PEGA FEITIÇO!

  Na Umbanda e nas tradições de matriz africana, os alimentos carregam axé (energia vital) e guardam mistérios ancestrais profundamente ligados às Divindades. A famosa expressão popular de que "quem come quiabo não pega feitiço" transcende o mero dito folclórico: ela sintetiza um fundamento divino e cosmogônico diretamente conectado a Pai Xangô, o Orixá da Justiça, do Fogo e da Sabedoria. O quiabo é a iguaria principal do Amalá , a oferenda sagrada ofertada a Xangô. Sua natureza física e energética revela essa ligação: ao ser preparado, o quiabo libera uma goma viscosa, conhecida ritualisticamente como "visco" ou "baba". Na energia de Xangô, essa viscosidade atua como um verdadeiro escudo protetor. Assim como a baba faz com que tudo deslize sem aderir, a vibração do quiabo no organismo e no campo magnético do médium faz com que demandas, invejas e feitiçarias "escorreguem" sem conseguir se fixar. Além desse fator de proteção, o quiabo carrega a ...

OXUM

 

ITÃ DE NANÃ E OXALÁ: O BARRO DA CRIAÇÃO

O Segredo da Argila: O Encontro entre Oxalá e Nanã na Criação do Homem Existe uma beleza profunda na forma como a ancestralidade explica a nossa existência. Conta o mito registrado em detalhes por pesquisadores das tradições iorubás, como o célebre fotógrafo e antropólogo Pierre Verger que, no início dos tempos, o grande Orixá Oxalá recebeu a missão de modelar os seres humanos. Ele tentou usar o ar, mas a forma se dissipava. Tentou a água, mas o contorno se perdia na fluidez. Arriscou o fogo, mas a matéria era indomável e consumia a si mesma. Tentou a pedra, mas era rígida demais e faltava-lhe o sopro da flexibilidade. Foi então que Nanã Buruquê, a Orixá mais antiga, a senhora dos pântanos e da sabedoria ancestral, emergiu das profundezas das águas calmas e estendeu a Oxalá a sua matéria-prima: a lama, o barro úmido e maleável do fundo da terra. Com a argila de Nanã, Oxalá finalmente conseguiu esculpir as feições humanas, dando-nos forma, enquanto Olorum soprou o axé, o sopro da vida, ...

BANHO DE FOLHA DE PITANGA: O BANHO DO CAÇADOR

  Na classificação litúrgica de Adriano Camargo, o Erveiro, a folha de pitanga é considerada uma erva morna (ou equilibradora) , atuando principalmente como um potente agente vitalizador e movimentador de energias. Associada fundamentalmente ao Orixá Oxóssi (mas também cruzando vibrações com Ogum e Iansã), essa folha carrega o fator de desagregação de acúmulos energéticos estagnados, limpando o campo áurico sem causar o desgaste que as ervas quentes provocam.  Para o Pai Eduardo de Oxóssi, do T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda, a folha de pitanga é, essencialmente, o verdadeiro banho do caçador. Essa associação sagrada resgata as virtudes mais puras do arquétipo da caça: a paciência estratégica e o foco absoluto no alvo (Oxossi) e a agilidade precisa no momento do bote (ação).  Ao envolver o campo magnético do médium, o banho de pitanga desperta a astúcia e o dinamismo (Yansã) necessários para rastrear oportunidades e superar as densidades da mata da vida, g...

ITÃ: POR QUE XANGO COME EM GAMELA?

  Muitas vezes, a resposta para os nossos rituais atuais está guardada na sabedoria dos itãs (as narrativas sagradas que atravessam gerações). O pesquisador e sociólogo Reginaldo Prandi, em sua renomada obra Mitologia dos Orixás (2001), resgata o mito que fundamenta esse preceito litúrgico e nos traz uma lição profunda sobre respeito, impulsividade e reparação. O itã nos conta que, em uma jornada mítica, Airá conduzia o velho Oxalá até o palácio para os festejos. No caminho, ao avistar Oiá preparando o Amalá na pedreira, a natureza vibrante e a conhecida gulodice do Rei de Oyó falaram mais alto. Movido pela pressa e pelo desejo, Xangô correu em direção à comida, negligenciando o amparo ao ancião, o que fez com que Oxalá caísse e se ferisse. O arrependimento foi imediato. Diante da falha, iniciou-se um intenso processo de purificação e pedido de perdão, com o povo trazendo águas e panos brancos para limpar e confortar o grande pai. Oxalá aceitou as desculpas, mas determinou uma puni...

ITÃ: YEMANJÁ ACOLHE E CUIDA DE OBALUAE

  Dizem os antigos itãs, com a sabedoria silenciosa que Pierre Verger tão bem soube eternizar em suas vivências entre a Bahia e a África, que o destino dos orixás é moldado pelas águas e pela terra. Conta a história que Nanã, a senhora dos primórdios, a mais velha das mães, deu à luz um menino marcado pelas chagas e pela fragilidade da carne. Diante da dor e da própria severidade de sua natureza ligada ao barro profundo, Nanã não encontrou em si o colo para criá-lo e o entregou à sorte, deixando o pequeno Obaluaê à beira do mar, onde a terra encontra o infinito. Mas o mar nunca ignora o clamor dos desamparados. Das espumas salgadas emergiu Iemanjá, a grande mãe de contornos generosos e coração do tamanho do oceano. Ao ver o choro daquela criança exposta ao sol e à areia, seu instinto de proteção se fez maré alta. Iemanjá recolheu Obaluaê em seus braços de água e o lavou com o sal que cura e purifica. Cobriu suas feridas com pérolas, palha da costa e um amor tão vasto que transformo...

SINCRETISMO COMO TRONOS DE DEUS E NÃO MAIS COMO APAGAMENTO DO RACISMO RELIGIOSO - POR EDUARDO DE OXOSSI

  Texto do Blog Baiano Juvenal Autor: Pai Eduardo de Oxossi O sincretismo religioso é um dos temas mais polêmicos, complexos, ricos e, por vezes, incompreendidos dentro da história das religiões brasileiras. Para compreendermos a sua real profundidade, precisamos fazer um mergulho no tempo, voltando aos séculos de colonização e escravidão no Brasil. Naquela época, o povo africano escravizado foi violentamente privado de sua liberdade, de sua dignidade e, também, do direito de exercer a sua fé originária. Sob a imposição do catolicismo colonial e a vigilância dos padres e senhores de engenho, que enxergavam os deuses africanos como manifestações heréticas e demoníacas, cultuar os Orixás era um ato passível de severas punições. Nascia ali, sob a pressão do racismo religioso e da necessidade de sobrevivência, o sincretismo surge como uma estratégia de resistência e salvaguarda espiritual . Os africanos escravizados, dotados de uma sabedoria e percepção aguçadas, passaram a id...

ITÃ: OXUM DERROTA OS INIMIGOS DO REINO DE XANGO

  Xangô morava em um grande reino com suas três esposas: Oxum, Obá e Iansã. Certo dia, ao ser ameaçado, o rei precisou partir para a guerra e começou a convocar suas companheiras. Decidiu levar Obá por sua enorme força física, resistência e dotes culinários para alimentar o exército. Convocou também Iansã, por ser ágil, destemida, senhora do vento, do fogo e brilhante com as espadas. Olhando para Oxum, com toda sua graça, vaidade e um aspecto frágil de menina em corpo de mulher, Xangô ordenou que ela ficasse para trás, cuidando do castelo, do povo e de suas concubinas, orientando-a a colocar suas melhores joias para comemorarem quando ele retornasse. O rei partiu com suas amazonas, mas, logo em seguida, o exército inimigo bateu à porta aproveitando que o reino estava desprotegido. Desesperado, o guarda correu até Oxum avisando que todos estavam perdidos. Com total serenidade, a rainha ordenou que mandasse os inimigos entrarem, fossem conduzidos ao salão real e que preparassem o mel...

ITÃ: A ÚNICA FLECHA DE OXÓSSI: O DIA EM QUE A PRECISÃO VENCEU O MEDO

Por: Pai Eduardo de Oxossi  Conta o itã, registrado pelo mestre Pierre Verger, que as Iyámi Oxorongá , as grandes mães ancestrais, detentoras de mistérios profundos e temidos enviaram um pássaro gigantesco e malévolo para pousar sobre o palácio do rei de Oyó. A presença daquela ave quebrava a harmonia do reino e trazia a sombra da própria morte. Ninguém conseguia espantá-la. O rei, desesperado, convocou os maiores caçadores da região. O primeiro veio com cem flechas, errou todas e foi castigado. O segundo trouxe duzentas flechas, mas o medo desestabilizou sua mira, e ele também falhou. O terceiro, com trezentas flechas, sucumbiu diante do poder do pássaro. A esperança do reino parecia perdida. Foi quando se apresentou Oxotocanxo, o caçador de uma flecha só. Ele não trazia fartura de munição, mas carregava o silêncio, a concentração e a reverência. Enquanto os outros confiavam na quantidade, ele confiava na conexão. Sabendo do perigo, sua mãe buscou a sabedoria dos babalaôs e fez um...