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A UMBANDA ACREDITA EM DEUS? POR EDUARDO DE OXOSSI

 


Uma das perguntas mais frequentes que surgem quando alguém começa a conhecer a nossa religião é justamente sobre a presença divina primordial: afinal, a Umbanda acredita em Deus? A resposta para essa questão é um sonoro e absoluto sim.

A Umbanda é uma religião essencialmente monoteísta, fundamentada na crença de um princípio criador único, supremo e absoluto. Independentemente da vertente ou da forma como os rituais são conduzidos, a figura de um Deus maior, que rege o universo e todas as forças da natureza, é o alicerce sobre o qual toda a teologia umbandista se sustenta.

Para compreendermos a forma como Deus é cultuado em nossos terreiros, precisamos primeiro olhar para a própria essência formadora da Umbanda. Nossa religião é um belíssimo mosaico espiritual, nascido em solo brasileiro a partir do encontro de diversas matrizes religiosas, filosóficas e culturais. Essa pluralidade significa que a maneira como a presença de Deus é compreendida e nomeada vai estar intimamente atrelada à influência teológica e histórica que cada casa ou vertente carrega.

Apesar dessa diversidade de influências, o cerne da crença permanece inabalável. Todas as linhas da Umbanda concordam que existe uma Força Maior, uma Inteligência Suprema que deu origem à vida, aos mundos e a tudo o que existe. Os Orixás, por sua vez, não são deuses independentes que competem com esse criador, mas sim as próprias manifestações divinas. Eles são os executores da vontade suprema, as qualidades e as energias desse Deus único emanadas em toda a criação.

Em terreiros que preservam uma influência mais marcante das tradições africanas de origem iorubá ou nagô, é muito comum que esse Deus supremo seja chamado de Olorum ou Olodumare. Nessa visão teológica, Olorum é o senhor dos céus, o criador do universo e o sopro vital que anima todas as coisas. Ele é uma força tão grandiosa e imensurável que não possui forma humana, sendo reverenciado como a energia primordial da qual todos os Orixás e seres vivos descendem.

Já em outras vertentes, onde a herança dos povos bantos de Angola e do Congo é mais latente, a figura do Deus criador recebe o nome de Zambi, ou Nzambi. Na cosmovisão banta, Zambi é o soberano absoluto, o princípio sem princípio e o fim sem fim. Ele é o criador de todas as leis que regem a existência e, assim como Olorum, é considerado uma força grandiosa que atua por meio das divindades e das forças da natureza para manter o equilíbrio do cosmos.

Não podemos, de forma alguma, ignorar a profunda e histórica influência do catolicismo na formação da Umbanda. Devido ao processo de sincretismo religioso ocorrido no Brasil, o Deus cultuado nos terreiros também se funde, de maneira muito natural, com a imagem do Deus cristão. Para muitos umbandistas, a Força Suprema que move os trabalhos espirituais é exatamente a mesma reverenciada nas igrejas, trazendo para dentro dos centros uma roupagem de devoção e fé que é familiar a milhões de brasileiros.

Essa influência cristã se torna ainda mais evidente quando observamos a rotina e os rituais de grande parte dos terreiros de Umbanda. É extremamente comum e tradicional que as giras e os trabalhos espirituais sejam iniciados com orações consagradas do cristianismo. O canto do Pai Nosso, a prece da Ave Maria ou mesmo orações dedicadas a Jesus Cristo frequentemente sincretizado com Oxalá, o maior dos Orixás ecoam nos congás, reforçando que a presença do Deus cristão é viva, respeitada e perfeitamente integrada à liturgia umbandista.

Por outro lado, quando nos voltamos para as vertentes da Umbanda que trazem uma carga mais profunda do xamanismo, da Jurema e da sabedoria dos povos originários do Brasil, encontramos uma conexão divina intimamente ligada à terra e às florestas. Nessas linhas, fortemente marcadas pela presença luminosa dos Caboclos, o Deus supremo muitas vezes é reverenciado como Tupã. Tupã representa o grande espírito, a força que se manifesta no estrondo do trovão, na imensidão do céu e na pureza indomável da natureza.

Ao analisarmos todas essas nomenclaturas e origens, percebemos que Olorum, Zambi, Tupã ou o Deus cristão não são entidades diferentes disputando o topo de um panteão. Na verdade, eles são expressões culturais e linguísticas distintas para definir exatamente a mesma energia universal e criadora. A Umbanda, em sua infinita sabedoria e acolhimento, abraça essa diversidade, entendendo que o sagrado não pode ser limitado por uma única palavra, mas sim sentido pelo coração de quem tem fé.

O fato inquestionável é que não importa o nome que se dê, a Umbanda acredita, sente e trabalha sob a égide de um Deus criador. É Ele quem rege o universo, quem sustenta o sagrado no terreiro, quem dá força aos Orixás e quem ilumina os caminhos dos nossos amados guias espirituais. A Umbanda é uma religião de caridade, e toda a caridade praticada por Pretos Velhos, Caboclos, Exus e Erês nada mais é do que o amor desse Deus supremo se manifestando ativamente na vida de cada um de nós.


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