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O FOGO NÃO PEDE PERMISSÃO: POR QUE DEBATER O NOME DE OROINÁ NÃO APAGA A CHAMA DO SAGRADO?



Por: Eduardo de Oxossi

O fogo sempre queimou antes mesmo de o homem aprender a dar-lhe um nome. Na história das religiões e das tradições espiritualistas, poucas forças são tão universais, vivas e transformadoras quanto o elemento ígneo. No entanto, poucas forças também geram tanta polêmica e debates teológicos quando tentamos canalizar ou conceituar a sua manifestação espiritual.

Na Umbanda Sagrada, sistematizada e divulgada por Rubens Saraceni, fomos apresentados à Divindade Oroiná anteriormente chamada por ele sob o nome de Egunitá. Essa manifestação trouxe, ao longo dos anos, profundas reflexões, dúvidas e até mesmo resistências por parte de correntes mais tradicionais. A principal crítica surge do contraste com as tradições afro-brasileiras de matriz Nagô e Ketu, onde a palavra Eguntá ou as qualidades de Xangô possuem outros fundamentos, e onde o nome Oroiná não figurava historicamente como um Orixá do panteão africano tradicional.

Para compreender essa questão de forma didática, é preciso olhar além da semântica humana e entender o que essa energia representa:

  • A Função do Fogo Divino: Na teologia da Umbanda Sagrada, Oroiná atua no Trono Purificador e Consumidor, fazendo par com Xangô na linha da Justiça. Enquanto Iansã rege a movimentação e o ar que sopra as chamas, Oroiná representa a chama em si, o fogo divino que consome as negatividades, purifica o cordão astral, queima miasmas, limpa amarrações e transmuta as densidades da alma.
  • O Nome x Essência: As divergências históricas e linguísticas ocorrem porque a espiritualidade se revela à humanidade em ciclos e através da linguagem cultural de cada época. O nome é uma convenção humana para tentar traduzir uma frequência vibracional cósmica. O debate sobre se Oroiná é uma nomenclatura recente ou uma divindade ancestral não anula a existência da força que ela representa.

Quando expandimos o olhar para além dos terreiros, percebemos que as civilizações mais antigas e marcantes do mundo sempre reverenciaram a divindade e o mistério do fogo:

  • Mitologia Grega: Hefesto personificava o fogo da transformação, da metalurgia e da criação na forja, enquanto Héstia guardava a chama sagrada e imortal do lar e da comunidade.
  • Mitologia Romana: Vulcano dominava a força avassaladora dos vulcões e do fogo purificador, enquanto Vesta mantinha o fogo sagrado que nunca podia se apagar para garantir a proteção de Roma.
  • Mitologia Japonesa (Xintoísmo): Kagu-tsuchi é o deus xintoísta do fogo, cuja força é tão intensa e vital que seu nascimento transformou a própria estrutura do mundo espiritual e material.
  • Mitologia Egípcia: Sekhmet, a deusa com cabeça de leoa, personificava o calor escaldante do sol, o fogo devastador da justiça e, simultaneamente, a força da cura e da purificação espiritual.

 

Muitas das magias mais poderosas ativadas no planeta utilizam a força das velas, das fogueiras, das defumações e dos pontos riscados assentados na chama. O fogo é, universalmente, o único elemento que não se contamina: ele consome as ilusões e devolve apenas cinzas e luz.

Independentemente das correntes doutrinárias, de concordar com a nomenclatura ou de reconhecer Oroiná como um Orixá na sua prática individual, há uma verdade irrefutável no trabalho espiritual: não é possível fazer Umbanda sem o poder do fogo.

Quando firmamos uma vela no congraçamento do terreiro, quando um Preto Velho pita o seu cachimbo para queimar larvas astrais, ou quando uma linha de Exu descarrega um médium na chama, estamos ativando essa exata energia purificadora.

Menos apego às letras dos rótulos e mais reverência ao mistério que queima. Porque no fim, as teologias conversam, os nomes mudam, mas a chama viva continua limpando, aquecendo e iluminando os nossos caminhos.

Feliz a Umbanda que cultura o fogo e a mil facetas que ela representa para magia!

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