Pular para o conteúdo principal

Postagens

SINCRETISMO COMO TRONOS DE DEUS E NÃO MAIS COMO APAGAMENTO DO RACISMO RELIGIOSO - POR EDUARDO DE OXOSSI

  Texto do Blog Baiano Juvenal Autor: Pai Eduardo de Oxossi O sincretismo religioso é um dos temas mais polêmicos, complexos, ricos e, por vezes, incompreendidos dentro da história das religiões brasileiras. Para compreendermos a sua real profundidade, precisamos fazer um mergulho no tempo, voltando aos séculos de colonização e escravidão no Brasil. Naquela época, o povo africano escravizado foi violentamente privado de sua liberdade, de sua dignidade e, também, do direito de exercer a sua fé originária. Sob a imposição do catolicismo colonial e a vigilância dos padres e senhores de engenho, que enxergavam os deuses africanos como manifestações heréticas e demoníacas, cultuar os Orixás era um ato passível de severas punições. Nascia ali, sob a pressão do racismo religioso e da necessidade de sobrevivência, o sincretismo surge como uma estratégia de resistência e salvaguarda espiritual . Os africanos escravizados, dotados de uma sabedoria e percepção aguçadas, passaram a id...
Postagens recentes

ITÃ: OXUM DERROTA OS INIMIGOS DO REINO DE XANGO

  Xangô morava em um grande reino com suas três esposas: Oxum, Obá e Iansã. Certo dia, ao ser ameaçado, o rei precisou partir para a guerra e começou a convocar suas companheiras. Decidiu levar Obá por sua enorme força física, resistência e dotes culinários para alimentar o exército. Convocou também Iansã, por ser ágil, destemida, senhora do vento, do fogo e brilhante com as espadas. Olhando para Oxum, com toda sua graça, vaidade e um aspecto frágil de menina em corpo de mulher, Xangô ordenou que ela ficasse para trás, cuidando do castelo, do povo e de suas concubinas, orientando-a a colocar suas melhores joias para comemorarem quando ele retornasse. O rei partiu com suas amazonas, mas, logo em seguida, o exército inimigo bateu à porta aproveitando que o reino estava desprotegido. Desesperado, o guarda correu até Oxum avisando que todos estavam perdidos. Com total serenidade, a rainha ordenou que mandasse os inimigos entrarem, fossem conduzidos ao salão real e que preparassem o mel...

ITÃ: A ÚNICA FLECHA DE OXÓSSI: O DIA EM QUE A PRECISÃO VENCEU O MEDO

Por: Pai Eduardo de Oxossi  Conta o itã, registrado pelo mestre Pierre Verger, que as Iyámi Oxorongá , as grandes mães ancestrais, detentoras de mistérios profundos e temidos enviaram um pássaro gigantesco e malévolo para pousar sobre o palácio do rei de Oyó. A presença daquela ave quebrava a harmonia do reino e trazia a sombra da própria morte. Ninguém conseguia espantá-la. O rei, desesperado, convocou os maiores caçadores da região. O primeiro veio com cem flechas, errou todas e foi castigado. O segundo trouxe duzentas flechas, mas o medo desestabilizou sua mira, e ele também falhou. O terceiro, com trezentas flechas, sucumbiu diante do poder do pássaro. A esperança do reino parecia perdida. Foi quando se apresentou Oxotocanxo, o caçador de uma flecha só. Ele não trazia fartura de munição, mas carregava o silêncio, a concentração e a reverência. Enquanto os outros confiavam na quantidade, ele confiava na conexão. Sabendo do perigo, sua mãe buscou a sabedoria dos babalaôs e fez um...

ITÃ DE OGUM ONIRÊ: O DIA EM QUE O SILÊNCIO CUSTOU CARO

 ✍️ Texto por: Pai Eduardo de Oxóssi 📚 Inspirado nas obras de Pierre Verger. Você conhece a história de quando Ogum destruiu uma cidade por causa do silêncio? Após anos de guerras, Ogum decidiu retornar a Irê, cidade que ele mesmo fundou. Ele voltava cansado, com fome e sede. Ao entrar na aldeia, viu o povo reunido. Esperando ser recebido com festas e honras, ele saudou a todos. Mas ninguém respondeu. Ogum caminhou pelas ruas, pediu água e comida, mas as pessoas o ignoravam, olhando para o chão. O silêncio era absoluto. Sentindo-se profundamente desrespeitado e rejeitado pelo seu próprio povo, Ogum foi tomado por uma fúria avassaladora. Ele sacou sua espada e, num ataque de ira, destruiu a cidade. Pouco depois, seu filho Oni chegou e, horrorizado, explicou o terrível mal-entendido: a aldeia cumpria um voto sagrado de silêncio absoluto naquele dia. Ninguém podia falar. Não era desrespeito a Ogum, era resguardo religioso. Consumido pelo arrependimento e pela vergonha de ter agido po...

ITÃ: O DIA EM QUE NANÃ BANIU O FERRO

Texto do pai Eduardo inspirado em Pierre Verger: No clássico livro “Lendas Africanas dos Orixás”. Na imensidão dos tempos antigos, um conflito de princípios marcou a relação entre duas grandes divindades: Nanã, a anciã da lama primordial, e Ogum, o senhor dos metais, da tecnologia, guerras e da ação. Nanã reinava sobre o território sagrado onde a vida e a morte se encontravam no ciclo perfeito da natureza. Tudo o que nascia da terra à terra voltava, sem pressa. Mas o mundo avançava. Ogum havia descoberto o segredo da metalurgia, forjando o ferro e criando ferramentas que aceleravam os processos, mas que também traziam a rigidez e a violência das armas. Ao ver essa força invadir seus domínios, Nanã sentiu o equilíbrio ancestral ser ameaçado. Para ela, o metal era desrespeitoso com o ritmo natural da vida. Diante disso, a matriarca tomou uma decisão soberana: proibiu o uso de qualquer objeto de ferro dentro do seu reino. Ogum, orgulhoso, a desafiou, questionando como o povo sobreviveria ...

FOTOS COM ALGUNS MOMENTOS DE NOSSAS GIRAS DE CABOCLOS

 

O BANQUETE DA VITÓRIA: POR QUE OFERECEMOS PÃO A OGUM?

 Por: Eduardo de Oxossi T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda Muitas vezes, ao visitarmos um terreiro em dia de festa e asé para Ogum, recebemos um pão bento ou observamos a presença do pão na mesa de oferenda de Ogum, enfeitado com fitas azuis ou vermelha juntamente a outros elementos deste Orixá. Existe um senso comum que tenta explicar esse costume apenas pelo sincretismo com Santo Antônio, mas a verdade guarda uma raiz muito mais profunda, humana e emocionante, que nasce no coração de uma das casas mais tradicionais da nossa matriz africana: A Casa de Oxumaré.   A tradição dos "Pães de Ogum" não nasceu da fartura, mas da fé inabalável de uma mulher extraordinária: Mãe Simplícia. Em 1952, ao assumir a liderança do Axé, ela enfrentava tempos de extrema dificuldade financeira. Mesmo trabalhando arduamente vendendo quitutes, manter a estrutura do terreiro era um desafio diário.   Certo dia, ao cumprir seu ritual matinal de entrega a Exu, Mãe Simplícia...