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SINCRETISMO COMO TRONOS DE DEUS E NÃO MAIS COMO APAGAMENTO DO RACISMO RELIGIOSO - POR EDUARDO DE OXOSSI

 


Texto do Blog Baiano Juvenal

Autor: Pai Eduardo de Oxossi

O sincretismo religioso é um dos temas mais polêmicos, complexos, ricos e, por vezes, incompreendidos dentro da história das religiões brasileiras. Para compreendermos a sua real profundidade, precisamos fazer um mergulho no tempo, voltando aos séculos de colonização e escravidão no Brasil.

Naquela época, o povo africano escravizado foi violentamente privado de sua liberdade, de sua dignidade e, também, do direito de exercer a sua fé originária. Sob a imposição do catolicismo colonial e a vigilância dos padres e senhores de engenho, que enxergavam os deuses africanos como manifestações heréticas e demoníacas, cultuar os Orixás era um ato passível de severas punições. Nascia ali, sob a pressão do racismo religioso e da necessidade de sobrevivência, o sincretismo surge como uma estratégia de resistência e salvaguarda espiritual.

Os africanos escravizados, dotados de uma sabedoria e percepção aguçadas, passaram a identificar semelhanças marcantes entre as trajetórias, virtudes e iconografias dos santos católicos e os arquétipos de seus Orixás. Ao olharem para a imagem de São Jorge com sua armadura e espada combatendo o dragão, viram a força guerreira e a defesa de Ogum.

Ao observarem os relatos sobre a pureza e o acolhimento das águas associados às qualidades de Nossa Senhora, conectaram-na às Grandes Mães das águas doces e salgadas. Dessa forma, ao rezarem diante do altar católico imposto pelos colonizadores, eles direcionavam seu pensamento, seu axé e sua devoção verdadeira às suas divindades ancestrais. Essa associação mútua permitiu que a essência dos Orixás sobrevivesse à tentativa de apagamento cultural.

Embora o sincretismo tenha sido fundamental para preservar as forças espirituais no passado, o cenário atual nos convida a uma reflexão madura e libertadora. Hoje, mesmo sabendo que a luta contra o preconceito é diária, a sociedade e as leis nos asseguram o direito de professar nossa fé.

Temos a dimensão e a consciência de que não precisamos mais esconder uma fé atrás da outra, nem mascarar o culto aos Orixás sob o manto de santos católicos para sermos aceitos ou respeitados. Essa transição histórica nos permite olhar para o sincretismo não mais como uma amarra ou uma camuflagem obrigatória, mas sim como um patrimônio histórico e uma rica manifestação de criatividade cultural e espiritual.

Com o amadurecimento das religiões de matriz africana e afro-brasileiras, novas perspectivas teológicas surgiram para explicar a grandiosidade dessas forças universais. A vertente da Umbanda Sagrada, estruturada e expandida por Rubens Saraceni, trouxe uma contribuição fundamental para esse entendimento ao ampliar o estudo da religiosidade e da espiritualidade de forma global.

Nessa proposta teológica, os Orixás deixam de ser vistos apenas sob a ótica antropomórfica e passam a ser compreendidos como mistérios divinos purificados, ou seja, como "Tronos de Deus". Essas Linhas de Força ou Tronos Universais regem os diferentes sentidos da vida e da criação, manifestando qualidades divinas que transcendem fronteiras geográficas ou dogmas específicos.

Dentro dessa estrutura da Umbanda Sagrada, podemos analisar, por exemplo, o Trono Feminino do Amor. Trata-se de uma vibração divina, magnética e irradiadora que sustenta o sentimento de união, de concepção, amor e de autoaceitação em todo o universo criado. No Candomblé e na própria Umbanda tradicional, essa regência sutil e acolhedora é associada diretamente à Orixá Oxum, a rainha das águas doces, do ouro e da fertilidade. Oxum é a própria manifestação viva desse Trono do Amor na natureza e na psique humana, agregando corações, gerando a vida e cuidando da harmonia das emoções com sua doçura e firmeza características.

Quando expandimos nosso olhar e cruzamos essa energia com o cristianismo e a cultura popular brasileira, percebemos que o Trono do Amor encontra forte eco nas figuras de Nossa Senhora da Conceição e de Nossa Senhora de Aparecida. A devoção mariana carrega em si os mesmíssimos atributos de amparo maternal, acolhimento incondicional e amor purificador que os terreiros reverenciam em Oxum. Essa ponte simbólica demonstra que, para além da imposição histórica do período colonial, existe uma conexão universal sutil e natural nas formas humanas de interpretar e sentir a energia do amor divino, independentemente do templo onde ela se manifeste.

Esse entendimento holístico e universal ganha contornos ainda mais amplos quando olhamos para outras tradições e mitologias antigas pelo mundo. O Trono do Amor e da Concepção também se reflete em deidades de panteões distantes, como a deusa grega Afrodite, a romana Vênus ou a nórdica Freya.

Embora cada cultura possua seus ritos, mitos e estéticas particulares e que devem ser rigorosamente respeitados em suas individualidades, a essência vibratória que essas divindades tocam na alma humana é CURIOSAMENTE semelhante. São personificações culturais e temporais de uma única e imensa força cósmica que emana do Criador para harmonizar e unir a humanidade.

Essa visão integrativa e ecumênica é amplamente debatida na literatura umbandista contemporânea. No livro Orixás na Umbanda: Um Deus, Sete Linhas e Muitos Orixás | Orixás na Umbanda, o sacerdote e escritor Alexandre Cumino aborda com muita propriedade essa dinâmica, destacando que os Orixás são divindades universais e manifestações das qualidades do próprio Deus Único (Olorum ou Zambi).

Cumino argumenta que os nomes dados pelas diferentes religiões ao longo da história humana são janelas distintas para contemplar a mesma paisagem divina. Trazer essa referência nos ajuda a compreender que olhar para os deuses e santos sob uma perspectiva macro não anula as suas particularidades, mas enriquece nossa percepção sobre a espiritualidade humana.

Diante disso, percebe-se que é perfeitamente possível e saudável adotar uma prática espiritual mais holística e de maior amplitude mental, sem que isso signifique diminuir o poder ou a legitimidade de qualquer manifestação. Reconhecer a correspondência de um Trono Divino não diminui a força e a sacralidade de um Santo Católico em sua egrégora de milagres e fé, assim como não reduz a potência, o mistério e a ancestralidade de um Orixá ou de uma Entidade de Terreiro. Da mesma forma, esse respeito estende-se às divindades da bruxaria, do xamanismo e de outras tradições pagãs ou esotéricas, pois cada egrégora opera em uma frequência legítima de amparo e evolução.

O caminho para o futuro da espiritualidade não reside na segregação e nem no apagamento do passado, mas sim no respeito mútuo e na liberdade de consciência para um futuro mais unido. Precisamos de mais diálogo, respeito e abertura para coexistir com o diferente e não repetir os erros de apagamento cultural como aconteceu na colonização.

O sincretismo cumpriu seu papel histórico de escudo e, hoje, tem potencial para transformar-se em uma lição de fraternidade entre as crenças. Ao compreendermos as forças de Deus como conceitos de “Tronos de Deus”, expandimos nossa mente para saudar o sagrado onde quer que ele se manifeste e não com a arrogância de achar que somente dentro da minha fé aquela energia é possível.

Que possamos caminhar com a certeza de que o amor, a fé e o conhecimento são chaves universais que abrem as portas para uma evolução verdadeiramente sem fronteiras.


BIBLIOGRAFIA 

CUMINO, Alexandre. Orixás na Umbanda: Um Deus, Sete Linhas e Muitos Orixás . 1. ed. São Paulo: Madras, 2021.

SARACENI, Rubens. A evolução dos orixás: a teologia da Umbanda Sagrada. 1. ed. São Paulo: Madras, 2012.

 

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