Enfrentar o preconceito no ambiente de trabalho por causa da nossa fé é uma dor profunda, que toca no âmago da nossa identidade e espiritualidade. Como umbandista, você sabe que nossa religião é pautada no amor, na caridade e no respeito a todos os seres, mas, infelizmente, a intolerância religiosa ainda se manifesta de formas veladas ou explícitas no meio corporativo.
Esse preconceito pode surgir através de piadas de mau gosto, exclusão em grupos sociais, olhares de julgamento ao usar uma guia discreta ou até no impedimento de ascensão na carreira. É fundamental compreender que a sua liberdade de crença não é um favor concedido pela empresa, mas um direito fundamental garantido pela Constituição Federal, que protege a dignidade da pessoa humana acima de qualquer dogma institucional.
No aspecto legal, o ordenamento jurídico brasileiro oferece uma base sólida para a proteção do trabalhador umbandista. A Constituição Federal, em seu Artigo 5º, inciso VI, estabelece que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos. No âmbito trabalhista, a Lei nº 9.029/95 proíbe expressamente qualquer prática discriminatória para efeito de acesso à relação de trabalho ou sua manutenção, seja por motivo de religião, raça ou cor.
Além disso, a intolerância religiosa é crime tipificado pela Lei nº 7.716/89 (Lei Caó), que prevê punições para quem praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião. Caso você sofra algum tipo de retaliação ou assédio moral por ser de Axé, a empresa pode ser responsabilizada judicialmente por danos morais, uma vez que o ambiente de trabalho deve ser pautado pela diversidade e pelo respeito mútuo.
Ao perceber que está sendo alvo de intolerância, é importante agir com a cabeça fria e o coração firme, buscando documentar cada situação. Manter a postura ética que aprendemos com os nossos Guias é essencial, mas isso não significa aceitar o desrespeito silenciosamente. Se você se sentir seguro e houver abertura, o primeiro passo pode ser uma conversa franca com o gestor imediato ou com o setor de Recursos Humanos para relatar o desconforto. No entanto, se o ambiente for hostil, a estratégia muda para a proteção formal de seus direitos. Para ilustrar como agir, considere as seguintes orientações e exemplos:
Documentação: Guarde e-mails, mensagens de texto, áudios ou capturas de tela que contenham teor discriminatório. Anote datas, horários e possíveis testemunhas que presenciaram atos de preconceito.
Exemplo Prático: Se um colega fizer um comentário ofensivo sobre sua guia, em vez de apenas ignorar, envie um e-mail cordial para ele (com cópia oculta para você) dizendo: "Gostaria de registrar meu desconforto com o comentário feito hoje sobre meu objeto religioso; prezo pelo respeito mútuo em nossa equipe". Isso cria um rastro de que você tentou resolver e que o ato ocorreu.
Canais de Compliance: Utilize os canais de denúncia interna da empresa, que geralmente garantem o anonimato e a confidencialidade. Verifique se a organização possui políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) para fundamentar sua queixa.
Denúncia em Órgãos Externos: Caso a empresa não tome providências, você pode recorrer ao Ministério Público do Trabalho (MPT) ou registrar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia comum ou especializada em crimes de intolerância.
Disque 100: Este é o canal direto de Direitos Humanos do Governo Federal, preparado para receber e encaminhar denúncias de discriminação religiosa de forma gratuita e sigilosa.
Sindicato da Categoria: Procure o suporte jurídico do seu sindicato, que pode oferecer orientação sobre como proceder sem sofrer retaliações contratuais.
A denúncia não é apenas um ato de defesa individual, mas um serviço coletivo para que outros irmãos e irmãs não passem pelas mesmas situações. O medo de represálias é real, mas o silêncio alimenta a impunidade. Ao acionar canais de compliance ou autoridades legais, você obriga a organização a rever seus processos culturais e a educar seus colaboradores. Lembre-se que o RH tem o dever de zelar por um clima organizacional saudável e inclusivo, e a intolerância religiosa é uma barreira direta para o bem-estar e a produtividade de qualquer equipe.
Por fim, mantenha sua fé como escudo e sua consciência como guia. Ser umbandista no trabalho exige, por vezes, uma coragem silenciosa, mas nunca deve exigir a renúncia da sua essência. O conhecimento das leis e dos mecanismos de denúncia é a sua "ferramenta de ferro" contra a injustiça. Busque apoio em sua comunidade religiosa e em profissionais que entendam a gravidade do assédio religioso. A justiça dos homens, quando bem acionada, deve refletir a justiça que buscamos no espiritual: aquela que equilibra, protege e restaura o direito de todos de serem quem são, sem medo e com todo o orgulho de sua ancestralidade.
Pai Eduardo de Oxóssi
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