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O BANQUETE DA VITÓRIA: POR QUE OFERECEMOS PÃO A OGUM?

 Por: Eduardo de Oxossi

T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda





Muitas vezes, ao visitarmos um terreiro em dia de festa e asé para Ogum, recebemos um pão bento ou observamos a presença do pão na mesa de oferenda de Ogum, enfeitado com fitas azuis ou vermelha juntamente a outros elementos deste Orixá.

Existe um senso comum que tenta explicar esse costume apenas pelo sincretismo com Santo Antônio, mas a verdade guarda uma raiz muito mais profunda, humana e emocionante, que nasce no coração de uma das casas mais tradicionais da nossa matriz africana: A Casa de Oxumaré.

 

A tradição dos "Pães de Ogum" não nasceu da fartura, mas da fé inabalável de uma mulher extraordinária: Mãe Simplícia. Em 1952, ao assumir a liderança do Axé, ela enfrentava tempos de extrema dificuldade financeira. Mesmo trabalhando arduamente vendendo quitutes, manter a estrutura do terreiro era um desafio diário.

 

Certo dia, ao cumprir seu ritual matinal de entrega a Exu, Mãe Simplícia encontrou as latas de farinha vazias. Só havia o pão. Naquele momento de desolação, ela não se revoltou; ela suplicou a Ogum. Prometeu que, se o Senhor dos Caminhos nunca deixasse faltar o sustento em sua casa, ela passaria a distribuir pães como lembrança em todas as suas festas.

 

Ogum ouviu. A vida de Mãe Simplícia prosperou e ela manteve sua promessa por anos. No terceiro ano de sua gestão, com muito esforço, ela comprou o primeiro fogão a gás do terreiro para assar os pães ali mesmo. Mas, no dia da festa, o gás acabou. O desespero bateu: os pães atrasaram e a Iyalorixá, entristecida por achar que não cumpriria sua promessa, deu início ao Xirê com o coração apertado.

 

Foi então que o inesperado aconteceu. Durante o "Hun", o Ogum de Mãe Simplícia surpreendeu a todos. Ele entrou na cozinha, pegou os pães que ainda esfriavam, colocou-os em um balaio enfeitado com o Mariô de suas próprias vestes e entrou no salão cantando:

 

"Akara Mu Avaro Veve, Awo Awo"

 

Aquele guerreiro imbatível, senhor do ferro e das batalhas, mostrou sua face mais acolhedora. Ele mesmo distribuiu os pães aos filhos e devotos.

 

O que esse Pão representa para nós hoje?

 

Para nós das religiões do asé no Brasil, esse pão não é apenas alimento. Ele é o símbolo da vitória sobre a escassez. Ele representa a sensibilidade de um Orixá que, embora seja um lutador, tem o olhar atento às aflições de seus filhos.

 

Quando você receber um pão de Ogum, lembre-se: Aquele pão carrega o fundamento da persistência, do trabalho e da certeza de que, sob a guarda de Ogum, a fome de pão e a fome de axé jamais prevalecerão.

 

COMPLEMENTOS DO PAI EDUARDO DE OXOSSI

 

Além da história emocionante de Mãe Simplícia, precisamos olhar para a essência vibratória do pão sob a ótica dos elementos de Ogum. O pão é, antes de tudo, o resultado de uma alquimia profunda que envolve os domínios deste Orixá. Se lembrarmos que Ogum é o grande Ferreiro do Reino, aquele que domina o fogo para moldar o metal e transformá-lo em ferramenta, percebemos que o pão segue a mesma lógica de transmutação.

É através do calor e da força que a farinha e a água deixam de ser elementos isolados para se tornarem sustento. Assim como o ferro é forjado na brasa, o pão é forjado no forno, provando que Ogum é o senhor de tudo o que exige transformação para gerar vida e proteção.

É fundamental observar também que o pão não se distancia dos fundamentos ancestrais das farinhas apreciadas por Ogum. O pão nada mais é do que um desdobramento ritualístico de elementos como a farinha de mandioca e em alguns casos do inhame, ingredientes sagrados que fundamentam o Axé deste Orixá.

Quando oferecemos ou distribuímos o pão, estamos oferecendo a evolução desses grãos e raízes. Podemos ver Ogum, senhor dos caminhos criando rota de alimentação para quem tem fome. O pão é um alimento forte na mesa brasileira, barato e acessível. É a energia da terra processada pela inteligência humana, uma das grandes regências de Ogum, que nos ensinou a tecnologia de plantar, colher e processar o alimento. O pão é a materialização da fartura que nasce do suor do rosto e da força do braço.

Por fim, a tradição dos Pães de Ogum é o que podemos chamar de um autêntico "tempero brasileiro" em nossa ritualística. Embora nossas raízes venham de África, é no solo do Brasil, no entrelaçar das dificuldades e das vitórias das nossas comunidades de terreiro, que esse rito se consolidou e nos atravessa.

O pão tornou-se um símbolo da nossa identidade enquanto religião de matriz africana em solo brasileiro: uma fé que se adapta, que se reinventa na escassez e que celebra a vitória de forma única. É o fundamento ancestral se vestindo com as cores e os sabores da nossa terra, provando que o Axé é vivo, dinâmico e profundamente acolhedor.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Veja o texto original sobre esse fundamento diretamente na página da Casa de Oxumaré - https://www.facebook.com/casadeoxumare/posts/os-p%C3%A3es-de-%C3%B2g%C3%BAn-o-nascimento-da-tradi%C3%A7%C3%A3o-a-f%C3%A9-de-m%C3%A3e-simpl%C3%ADcia-atualmente-muitos/1052788121411092/


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