O Segredo da Argila: O Encontro entre Oxalá e Nanã na Criação do Homem
Existe uma beleza profunda na forma como a ancestralidade explica a nossa existência. Conta o mito registrado em detalhes por pesquisadores das tradições iorubás, como o célebre fotógrafo e antropólogo Pierre Verger que, no início dos tempos, o grande Orixá Oxalá recebeu a missão de modelar os seres humanos.
Ele tentou usar o ar, mas a forma se dissipava. Tentou a água, mas o contorno se perdia na fluidez. Arriscou o fogo, mas a matéria era indomável e consumia a si mesma. Tentou a pedra, mas era rígida demais e faltava-lhe o sopro da flexibilidade.
Foi então que Nanã Buruquê, a Orixá mais antiga, a senhora dos pântanos e da sabedoria ancestral, emergiu das profundezas das águas calmas e estendeu a Oxalá a sua matéria-prima: a lama, o barro úmido e maleável do fundo da terra.
Com a argila de Nanã, Oxalá finalmente conseguiu esculpir as feições humanas, dando-nos forma, enquanto Olorum soprou o axé, o sopro da vida, em nossas narinas. No entanto, o empréstimo da anciã tinha uma condição sagrada.
Nanã exigiu que, ao final da jornada terrena de cada ser, quando o espírito se desprendesse do corpo no momento do desencarne, a matéria retornasse ao seu ponto de origem.
O corpo físico deveria voltar a ser terra, devolvendo à grande mãe o que a ela pertencia por direito, garantindo o ciclo eterno de renovação e continuidade.
Essa história, viva nos terreiros e eternizada no olhar sensível de Pierre Verger em seus estudos sobre os Orixás, nos lembra de uma lição poderosa sobre humildade e impermanência.
Não somos donos da matéria, somos apenas inquilinos temporários neste manto de argila. Compreender que um dia retornaremos aos braços de Nanã não traz dor, mas sim um profundo respeito pelo tempo, pela nossa ancestralidade e pela terra que nos sustenta enquanto caminhamos.
Que Oxalá nos dê a sabedoria para moldar nossos dias com suavidade e que a paciência de Nanã guie os nossos ciclos. Saluba, Nanã! Epá Babá, Oxalá!
Pai Eduardo de Oxossi
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