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SEXTA-FEIRA SANTA NA UMBANDA – POR EDUARDO DE OXOSSI

 


A Sexta-feira Santa é um dia de profundo silêncio e respeito para as religiões cristãs. No calendário católico, marca o momento em que o Mestre Jesus — símbolo maior de amor, naquela época e dentro daquela cultura — foi sacrificado na cruz. Esse momento é conhecido como a Paixão de Cristo e abre as portas para o ciclo de morte e renascimento, que se completa no Domingo de Páscoa.

Dentro da tradição católica, esse período é vivido com penitência, jejum e oração. A Eucaristia — o pão e o vinho partilhados — remonta à ceia de Pessach, a Páscoa judaica, quando Jesus se reúne com seus apóstolos antes de ser entregue, julgado e crucificado. É um rito que fala de união, partilha, corpo e espírito.

E como isso ecoa dentro dos terreiros de Umbanda?

A Umbanda é uma religião 100% brasileira, nascida do cruzamento sagrado entre influências das religiões de matrizes africanas, do catolicismo, do espiritismo, das tradições dos povos originários, da Jurema, entre outras. Essa diversidade reverbera até hoje e dá origem às muitas formas de vivenciar a religião: Umbanda Sagrada, Umbanda Branca, Umbandomblé, Umbanda Omoloko, Umbandaime, Umbanda Iniciática, entre outras.

Essa variedade de caminhos e possibilidades de culto ao sagrado fez com que muitos fundamentos se misturassem em um só corpo espiritual: a Umbanda. E é aí que entra não apenas o sincretismo religioso, mas também as heranças, influências e dogmas de outros sagrados que ajudaram na formação da Umbanda.

A energia da Sexta-feira Santa, por exemplo, carrega um mistério profundo. É dia de luto, de recolhimento, de vibração pesada. Há quem diga que os caminhos se abrem para más influências: kiumbas, eguns, magias invertidas, trabalhos de demanda, portais negativos, energias de conflito uma vez que se celebra a morte de Cristo. É como se o mal se aproveitasse de um momento sombrio para intensificar suas ações sobre a terra.

Essa teoria se confirma nas escritas sagradas do Cristianismo (Bíblia) como podemos observar no Evangelho de Mateus (27:45): “desde a hora sexta até a hora nona houve trevas sobre toda a terra.” Isso é um chamado à vigilância espiritual de seus fiéis.

Por essa razão, muitos zeladores e mães/pais de santo evitam giras ou consultas nesse dia. Uns por medo ou desinformação, outros por respeito e afinidade com o simbolismo da data e o quanto ela está presente na influência do seu terreiro. Hoje, porém, já se compreende que a Umbanda é uma religião independente e autônoma, ou seja, ela não precisa se submeter a conceitos de outras tradições (Sem o Candomblé ou o Catolicismo, por exemplo), mas sim estruturar sua própria visão de mundo sobre os fenômenos espirituais com os quais lida no seus ritos — mesmo quando esses fenômenos são atravessados por elementos de outras religiões, que muitas vezes podem até ser antagônicos entre si.

O que parece ser um ponto comum dentro da Umbanda é o entendimento de que essa data pede atenção. É tempo de firmar vela, fortalecer a fé, limpar o coração e agir com cautela. Afinal, se quem busca fazer o mal entende, espera, acredita que essa é uma data cabalística para seus feitiços de destruição. Agora, eu pergunto-lhes, por que o bem não se prepararia também para proteger, fortalecer e sustentar o axé sabendo que o mal estará levantando suas armas?

Independentemente de como sua casa se relaciona com a Sexta-feira Santa, o que precisamos é de respeito aos colegas e como se relacionam com ela.

Desejo que cada um saiba ouvir o silêncio do mundo espiritual presente nessa data e compreenda que antes da luz da ressurreição, também houve a escuridão do calvário. E é importante lembrar que nos dias mais sombrios foi também onde a fé verdadeira se forjou, onde a força se ergueu e onde se reafirmou que o sagrado é maior que a carne, maior que o olhar e maior que qualquer escuridão.

Essa leitura de fenômeno não é diferente das outras religiões. Luz e trevas andam lado a lado e uma não existe sem a outra. Sempre que tivemos um período de Luz, ele esteve relacionado a um período de obstáculos. É como se a paz e o caos dividissem o mundo em um grande caldeirão com todos nós lá dentro. 

Saravá Oxalá, salve nosso mestre Jesus Cristo, saravá todos os guias de luz!

Axé!

Pai Eduardo de Oxossi

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