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QUANDO UM COLEGA SOBE DE CARGO NO TERREIRO DE UMBANDA



Embora o terreiro seja um solo sagrado onde o ego deve ser deixado à porta, a organização do trabalho espiritual exige uma estrutura clara. Na Umbanda, os cargos existem para servir, não para conferir status. Quando a estrutura é respeitada, a corrente se fortalece; quando a vaidade assume o comando, a energia se dissipa.

A Estrutura Organizacional e Espiritual

Para que a caridade aconteça com ordem e segurança, as responsabilidades são distribuídas da seguinte forma:

  • Pai/Mãe de Santo (Dirigente Espiritual): Detentor da outorga espiritual e administrativa da casa. Responsável pelas diretrizes doutrinárias, rituais, desenvolvimento mediúnico e pela condução ética da corrente.
  • Pai/Mãe Ogã: Guardiões da vibração através do toque e do canto. Coordenam o atabaque e dão suporte fundamental aos dirigentes na sustentação energética dos trabalhos.
  • Pai/Mãe Pequeno(a): Assistentes diretos dos dirigentes. Atuam na organização e execução das tarefas, servindo como lideranças de apoio e substitutos imediatos, sempre alinhados à orientação do Pai/Mãe de Santo.
  • Cambones: O alicerce do atendimento. Auxiliam as entidades, organizam a assistência e garantem que o fluxo do trabalho ocorra sem interrupções, sendo fundamentais na doutrina e na segurança.
  • Médiuns de Porteira ou Ponta de Lança: Responsáveis pela guarda vibratória da entrada, apoiando diretamente a cúpula espiritual em trabalhos que exigem maior densidade energética.
  • Médiuns de Transporte e de Passe: Atuam na linha de frente do atendimento direto ou em trabalhos de desobsessão, conforme o grau de desenvolvimento e outorga recebida.
  • Corpo Administrativo (Secretaria e Tesouraria, por exemplo): Zelam pela saúde burocrática e financeira da casa, garantindo que o templo tenha condições materiais de exercer sua missão.
  • Limpeza: Uma responsabilidade compartilhada. Na Umbanda, a limpeza do chão é tão sagrada quanto a entrega do passe. Quem não se dispõe a limpar, não está pronto para benzer.

Promoção e Delegação: Um Chamado à Responsabilidade

O terreiro é um espaço de missão e amor, não um clube social ou um palco para "panelinhas". Cargos são concedidos por merecimento espiritual, prontidão emocional e necessidade da casa, nunca por popularidade ou tempo de casa apenas.

Se você veste o branco, deve ser ético. Torcer pelo crescimento de um irmão é sinal de maturidade espiritual, alimentar inveja ou fofocas é evidência de que a reforma íntima ainda não começou. Podemos enganar o olhar humano, mas jamais o olhar dos Guias. Quando abrimos a boca para tentar fazer intriga, fofoca, ou colocar um irmão contra o outro, os guias enxergam. Xango não é cego.

Parabenizar com falsidade enquanto se articula um boicote por trás é uma das falhas mais graves do caráter de um médium. Na Umbanda, não há hierarquias de valor humano, todos são importantes, mas cada um no seu degrau de responsabilidade. Quem não compreende que o cargo é um ônus de trabalho antes de ser um bônus de honra, ainda não está preparado para liderar.


O Autogerenciamento e a Ética na Corrente

Valorizamos o autogerenciamento: cada filho deve olhar para o próprio caminhar. Se você almeja um cargo, foque em sua dedicação e retidão. Faça uma reflexão:

Como está sua presença no terreiro? Você tem mais faltas do que presença? Mais desculpas do que soluções?

Você está em dia com suas responsabilidades? (Limpeza, mensalidade, etc)

Você é uma pessoa que se dedica aos estudos ou quando acabou o desenvolvimento você se acomodou?

No terreiro você faz o básico, faz o mínimo e acha que é muito ou é aquela pessoa que está sempre fazendo algo a mais?

Você é do tipo de pessoa que fica esperando elogios ou está indo para o terreiro para prestar a caridade?

Você é do tipo de pessoa que só lembra de procurar o pai/mãe de santo quando precisa, ou procura para ver se ele está bem e precisa de ajuda?

Você está em busca de cargo para satisfazer seu ego ou ajudar mais o terreiro?

O trabalho no terreiro é para o Divino. De nada adianta incorporar entidades de luz se, fora do terreiro, você não cuida de suas palavras e atitudes. Umbanda é coisa séria para gente séria.

Quando um Irmão é Promovido: Diretrizes de Conduta

Para manter a harmonia da egrégora, siga estas orientações:

  1. Autenticidade: Seja a mesma pessoa na frente e por trás do seu irmão. A dissimulação quebra a corrente.
  2. Apoio Genuíno: Reze pelo sucesso do colega. Se a casa dele brilha, o terreiro inteiro se ilumina.
  3. Respeito à Decisão Espiritual: A promoção reflete a vontade dos Guias e a visão do Dirigente. Questionar isso por vaidade é desrespeitar a própria espiritualidade.
  4. Combate à Fofoca: Não alimente conversas negativas. O silêncio diante da fofoca é um escudo espiritual poderoso. Responda com firmeza e não se torne cúmplice de intrigas.
  5. Controle do Ego: Se sentir desconforto com a promoção alheia, reflita: o que em mim dói quando o outro cresce? Use isso para sua evolução na Psicologia Positiva e no autoconhecimento.
  6. Recorra ao seu Guia: Se o sentimento de inveja ou injustiça surgir, peça socorro ao seu Guia. Ele o ajudará a limpar o coração dessas energias densas.

Conclusão

A crítica excessiva ao outro é, quase sempre, um reflexo das nossas próprias limitações. O trabalho no terreiro visa a evolução coletiva. Que possamos construir um ambiente de luz, onde o sucesso do próximo seja motivo de alegria e onde o amor de Oxalá prevaleça sobre qualquer disputa de poder.

Axé! Pai Eduardo de Oxossi

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