Dizem os antigos itãs, com a sabedoria silenciosa que Pierre Verger tão bem soube eternizar em suas vivências entre a Bahia e a África, que o destino dos orixás é moldado pelas águas e pela terra.
Conta a história que Nanã, a senhora dos primórdios, a mais velha das mães, deu à luz um menino marcado pelas chagas e pela fragilidade da carne.
Diante da dor e da própria severidade de sua natureza ligada ao barro profundo, Nanã não encontrou em si o colo para criá-lo e o entregou à sorte, deixando o pequeno Obaluaê à beira do mar, onde a terra encontra o infinito.
Mas o mar nunca ignora o clamor dos desamparados.
Das espumas salgadas emergiu Iemanjá, a grande mãe de contornos generosos e coração do tamanho do oceano.
Ao ver o choro daquela criança exposta ao sol e à areia, seu instinto de proteção se fez maré alta. Iemanjá recolheu Obaluaê em seus braços de água e o lavou com o sal que cura e purifica.
Cobriu suas feridas com pérolas, palha da costa e um amor tão vasto que transformou a rejeição em realeza. Sob os cuidados da rainha do mar, o menino rejeitado cresceu para se tornar o senhor da cura, o dono da terra, aquele que detém o segredo da vida e da transformação.
Essa passagem nos ensina sobre a geometria sagrada dos afetos: onde uma mãe encontra o limite de sua própria dureza, outra estende a imensidão do seu acolhimento.
Obaluaê carrega as marcas do abandono, mas veste a coroa da superação, moldada pelo afeto de Iemanjá.
Que possamos olhar para as nossas próprias feridas sabendo que, mesmo nos momentos de maior solidão, sempre haverá uma força ancestral pronta para nos acolher, lavar nossa alma e nos lembrar de nossa verdadeira realeza.
Pai Eduardo de Oxóssi




Comentários
Postar um comentário