Texto do pai Eduardo inspirado em Pierre Verger: No clássico livro “Lendas Africanas dos Orixás”.
Na imensidão dos tempos antigos, um conflito de princípios marcou a relação entre duas grandes divindades: Nanã, a anciã da lama primordial, e Ogum, o senhor dos metais, da tecnologia, guerras e da ação.
Nanã reinava sobre o território sagrado onde a vida e a morte se encontravam no ciclo perfeito da natureza. Tudo o que nascia da terra à terra voltava, sem pressa. Mas o mundo avançava.
Ogum havia descoberto o segredo da metalurgia, forjando o ferro e criando ferramentas que aceleravam os processos, mas que também traziam a rigidez e a violência das armas.
Ao ver essa força invadir seus domínios, Nanã sentiu o equilíbrio ancestral ser ameaçado. Para ela, o metal era desrespeitoso com o ritmo natural da vida. Diante disso, a matriarca tomou uma decisão soberana: proibiu o uso de qualquer objeto de ferro dentro do seu reino.
Ogum, orgulhoso, a desafiou, questionando como o povo sobreviveria ou plantaria sem a tecnologia de suas ferramentas. A resposta de Nanã veio com a sabedoria de quem conhece a eternidade. Ela ordenou que seu povo voltasse a usar hastes de madeira, pedras polidas e bambu para o manejo da terra. Para os rituais, instituiu o uso do ofange (a faca de bambu), provando que a tradição e o respeito à matéria orgânica eram mais poderosos do que o metal.
Esse itan nos traz uma reflexão muito atual sobre os limites do progresso. Ogum representa a nossa busca incessante por evolução, ferramentas e controle. Nanã nos lembra de que a ancestralidade, a paciência e os ciclos naturais não podem ser atropelados pela pressa e pela rigidez.
Há momentos em que precisamos da força realizadora de Ogum para abrir caminhos, mas há momentos em que é preciso desarmar o espírito, deixar o ferro de lado e mergulhar na sabedoria e na calmaria de Nanã.
Saluba, Nanã! Patacori, Ogum! 💜💙



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