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A ROUPA ALÉM DA MATÉRIA: COMO AS ENERGIAS E HISTÓRIAS SE IMPREGNAM NO QUE VESTIMOS

 


Autores:

Eduardo de Oxossi – T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda (Freguesia do Ó/SP) www.cflecheirodearuanda.com.br

Lucas de Yansã – T.U.S. Caboclo Pena Verde e Flecheiro de Aruanda (Freguesia do Ó/SP) www.cflecheirodearuanda.com.br

 

O pano que nos cobre não é apenas fios entrelaçados. Na visão espiritualista e, em especial, na Umbanda, a matéria e a energia caminham lado a lado. Não é a toa que os guias que descem em terra usam roupas como instrumentos de magia (Capas, lenços, saias, etc). Tudo o que tocamos, produzimos e vestimos absorve a vibração do ambiente, das intenções, da história, do simbolismo, das memórias e dos sentimentos com os quais entra em contato.

As roupas funcionam como uma segunda pele e, por estarem em contato direto com os nossos chakras e nosso campo eletromagnético (nossa aura), elas acumulam registros vibracionais que podem nos impulsionar ou nos sobrecarregar. Compreender essa troca energética nos ajuda a ter uma relação mais consciente com o consumo, com o desapego e com a forma como cuidamos do nosso corpo físico e espiritual.

 

Roupas de Quem Já Partiu: Memória, Afeto e Desassociação

Uma das dúvidas mais comuns diz respeito ao uso das peças que pertenceram a parentes ou amigos falecidos. Não existe uma resposta única e simplista para essa questão, pois a energia impregnada no tecido depende de múltiplas variáveis.

O primeiro ponto a observar é o significado emocional daquela peça para quem ficou. Se ao vestir ou olhar para a roupa você sente aconchego, saudade respeitosa e carinho, a vibração é de amor. No entanto, se a peça evoca dor profunda, tristeza, angústia, apego excessivo ou luto estagnado, mantê-la por perto alimenta essa energia tanto quem veste quanto o espírito de quem partiu.

As energias se agrupam por centelhas de semelhança, ou seja, alegria atrai alegria e dor atrai dor. Outra variável importante é quem era aquela pessoa e como se deu a sua passagem. Enfermidades longas, momentos de muita dor física ou passagens abruptas e traumáticas tendem a deixar na matéria uma carga denso-emocional impregnada, como por exemplo, a roupa que o parente usou enquanto estava em uma clínica de recuperação, a roupa que usou enquanto estava preso, a roupa que usou enquanto enfrentava a depressão, um câncer ou doença terminal, a roupa que usou quando cometeu suicídio, etc.

Dentro da perspectiva da Umbanda, a matéria pode ser purificada e o elo fluídico entre a peça e o antigo dono pode e deve ser cortado. Para que uma roupa de falecido possa ser reaproveitada com segurança e respeito, é fundamental realizar um processo de desassociação energética. Isso envolve o desapego intencional, a higienização física rigorosa e a limpeza espiritual por meio dos elementos da natureza, permitindo que a roupa volte ao seu estado neutro antes de vestir um novo corpo.

Esse processo pode ser feito de diversas formas:

- Orações e preces direcionadas a essa intencionalidade;

- Banho de ervas na peça de roupa;

- Apoio de um guia em terra pra benzimento da peça;

- Defumação, etc.

 

O Processo aplicado a essa desassociação energética também vai depender da diversidade de ritos religiosos existentes. Cada casa interpreta e se posiciona diante desse assunto com base nos seus dogmas e doutrina.

 

A Marca da Origem: O Impacto da Injustiça e do Abuso na Matéria

Assim como os afetos deixam marcas, as dores da produção também ficam gravadas naquilo que consumimos. O processo de fabricação de uma peça carrega a intenção e o estado emocional de quem a manuseou.

Roupas produzidas através de trabalho análogo à escravidão, onde houve exploração, sofrimento, desesperança e raiva, chegam ao mercado carregadas por essa egrégora de dor. Da mesma forma, peças fruto de roubo ou furto carregam consigo a vibração do susto, da perda e da violência da ação.

A energia do abuso não desaparece magicamente quando a etiqueta é retirada. A matéria que nasce do sofrimento alheio carrega um miasma denso que pode gerar desconforto sutil, cansaço inexplicável ou irritabilidade em quem a veste, principalmente em pessoas com sensibilidade mediúnica aflorada. Por isso, a consciência do consumo e o olhar atento à procedência das coisas também são formas de exercício espiritual e de respeito ao axé.

 

Desmistificando o Bazar: Energia em Circulação e Sustentabilidade

Existe um mito recorrente de que roupas de bazar ou brechó carregam "energia pesada" por já terem pertencido a desconhecidos. Sob a ótica da Umbanda e da transmutação energética, isso não precisa ser uma verdade absoluta. O ato de fazer a energia circular, reaproveitar recursos e evitar o desperdício é extremamente positivo e alinhado com a harmonia da natureza e o que defende a Umbanda.

A roupa que está no bazar é uma matéria que, embora teve uma história, está aguardando um novo ciclo. Não é porque uma coisa foi ruim no passado que não podemos transmutá-las, ressignificá-las. A história do antigo dono não precisa ser um fardo eterno na peça, desde que você saiba como recebê-la, limpá-la e consagrá-la para a sua própria vida. Com o cuidado adequado, uma peça de brechó pode se tornar um símbolo de sustentabilidade e renovação.

 

Dicas do Pai Eduardo e Pai Lucas: Como Purificar e Preparar Roupas Usadas ou de Procedência Incerta

Se você adquiriu uma peça em um bazar ou recebeu uma doação e deseja zerar as cargas energéticas antes de usá-la, o processo de limpeza deve unir o plano físico e o plano sutil.

•             Lavagem Física e Sal Grosso: Faça a lavagem tradicional da peça. Na última enxágue ou em um balde separado, adicione uma colher de sal grosso diluído em água limpa. O sal atua desintegrando acúmulos fluídicos e miasmas aderidos ao tecido.

•             O Poder do Sol e do Vento: Deixe a roupa secar ao ar livre, exposta diretamente à luz do sol e à brisa dos ventos de Yansã. Os elementos Fogo (Sol) e Ar (Vento) são potentes purificadores naturais que dispersam qualquer resíduo vibracional denso.

•             Defumação e Ervas: Passe a peça pela defumação de ervas de limpeza (Arruda, guiné) ou ainda ervas de Omolu para encerramento de ciclo (folha de mamona seca, casca de alho, cipó cruz, etc). A fumaça atua sintonizando o tecido em uma nova frequência.

•             Intenção e Consagração: Ao dobrar e guardar a roupa, coloque a sua intenção firme. Diga mentalmente ou em voz alta que aquela matéria agora pertence a você, está limpa de todo o passado, de toda energia nociva e pronta para servir à sua proteção e ao seu bem-estar.

•             O Ritual do Aroma e a Imantação do Ori: Depois que a peça estiver limpa e purificada, no dia em que for usá-la pela primeira vez, faça disso um pequeno rito de pertencimento. Em frente ao espelho, borife o seu perfume preferido na roupa com intenção consciente, não de forma automática, mas desejando boas-vindas àquela peça na sua vida. Olhe para si, sinta-se bem, bonito e representado. Esse ato imanta a matéria com a sua própria identidade vibracional e alinha a peça ao seu Ori (sua cabeça/sua essência). Para selar esse novo ciclo, prefira estrear a roupa em um momento agradável, um ambiente leve ou um encontro especial, permitindo que a peça comece a registrar histórias energéticas alegres e de elevação ao seu lado.

 

O Ato de Doar: O que eu faço antes de doar minhas roupas?

 

Doar uma roupa que não nos serve mais ou que cumpriu seu papel em nossa vida é uma das formas mais bonitas de praticar a caridade e fazer o axé circular. Na Umbanda, cuidar do próximo e respeitar a matéria caminham juntos: a doação combate o desperdício de matéria prima, honra os recursos da natureza e oferece a alguém a oportunidade de construir novas memórias com algo que já nos trouxe alegrias.

 

No entanto, assim como nos preocupamos com a energia das roupas que chegam, precisamos ter cuidado com a energia das peças que saem. A roupa que usamos por muito tempo carrega nosso rastro fluídico, nossa identidade vibracional e nossas memórias. Se doamos uma peça sem desconectar a nossa energia, ela pode continuar sutilmente ligada ao nosso campo. Caso quem a receba esteja passando por momentos de forte desequilíbrio, dor ou baixa vibração, esse elo energético pode gerar um desgaste sutil em nós, sem que percebamos.

 

Desconectar-se da peça antes de doá-la é um ato de amor-próprio e de respeito por quem vai recebê-la. Abaixo dicas de como preparar uma roupa para a doação:

 

- Higienização e Entrega Consciente: Lave a peça com carinho. Evite doar roupas sujas, rasgadas ou em mau estado, pois a caridade deve ser feita com dignidade e respeito ao próximo.

 

- O Corte do Elo Fluídico: Antes de embalar a roupa, segure-a por alguns instantes com as duas mãos e faça uma prece simples. Mentalize que todo o vínculo energético entre você e aquela peça está sendo cortado e finalizado.

 

- Abençoar e Entregar ao Universo: Diga mentalmente ou em voz alta algo como: "Agradeço por todo o tempo em que esta roupa me serviu. Que ela vá limpa, neutra e abençoada, levando conforto e alegria para quem a receber."

 

- Descarrego Simples (opcional): Se for uma peça muito marcante ou usada em fases difíceis da sua vida, lave-a com um pouco de sal grosso ou deixe-a exposta ao vento e ao sol por algumas horas antes de dobrar e entregar.

 


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